segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A Boneca de Veludo Preto-IV lugar no Concurso Internacional das Edições AG




A boneca de veludo Preto (*)



O retalho de fino veludo preto, na banca das “Casas Regente”, tradicional loja de tecidos em “Juiz de Fora” , atraiu a moça. Pensou em cortá-lo em retângulos e neles aplicar flores de fita varicor, o que estava em voga naqueles anos sessenta. Gostava de trabalhos manuais e de criar peças para o seu enxoval. As claras mãos, muitos finas, destacaram-se no negro. O anel bonito, que terminava numa pérola encaixada em garras de ouro branco, faiscou. Presente de Pete, com quem namorava “firme”, como diziam então.

Acabou mandando embrulhar o retalho, pagou e, como sempre, foi à sorveteria da loja, onde os fregueses podiam servir-se gratuitamente de um delicioso sorvete, mais cremoso que o de qualquer outro lugar.

Professorinha recém-nomeada, foi dar aulas em um grupo escolar. Muito ocupada fazendo todo o material didático, já que as escolas estaduais da época possuíam-no muito pouco – confeccionava desde as cadernetas de notas mensais, feitas de cartolina dobradas e decoradas com seus caprichosos desenhos, às provas mimeografadas... Mapas, quadro de pregas para ensino de unidades, dezenas, centenas... Flanelógrafos, corpo humano, fauna e flora! Tudo feito em casa, na grande maioria, mais o plano dos testes... Nas datas comemorativas, dezenas de pequenos brindes e enfeites, alusivo: dia da páscoa, em abril, dia das mães em maio, dias de festas juninas, dia dos pais em agosto, dias da árvore e da entrada da primavera em setembro, dias das crianças e de N. Sra. Aparecida, padroeira do Brasil, em outubro, dia da bandeira em novembro e, em dezembro, as festas de fim de ano, com suas formaturas ou despedidas. Haja papel-cartão, papel-cetim, papel-de-seda, papel fantasia, papel kraft! Haja isopor, cola, aquarela e lápis cera e de cor! Os dedos, machucados de tanto usar tesoura, o rosto com pontos luminosos de brocal, purpurina, as unhas estragando-se.

Mas o prazer de lecionar, agradar à criançada, ver os resultados, mesclado à criatividade que recebera como dom, sobrepujava em muito aquela canseira toda.

Também ganhava presentes, em certas datas, mas, principalmente, no seu aniversário e no dia do professor. Alguns, feitos a capricho, pelas mães, como panos de prato, toalhinhas de crochê. Outros, terríveis, certos bibelôs de porcelana branca, com traços informes e riscos dourados. Alguns insuportáveis perfumes baratos, brincos de plástico vagabundo. Os simplórios ou baratos, como sabonetes. Bichinhos de pelúcia, bombons, cosméticos, principalmente se a mãe era uma “revendedora Avon”.

E broa com carinho, empadinhas sem azeitonas... De vez em quando, havia um pai dono de padaria, uma prendada tia, avó ou mãe confeiteira, doceira, costureira, florista... e, falando em flores, elas vinham aos montes, as de jardins e horta, as arrancadas pelo caminho ou roubadas de vizinhos...

Voltava para casa carregada com esses troféus do carinho que lhe dedicavam, feliz da vida. Uma vez, um aluno quis dar a ela algo inusitado:

- Um gato-coelho, fessora.

- Que é isso, Serginho?

- Um gato com rabo de coelho, todo branco, que pula como coelho.

A mãe dela adorava animais e, acompanhada do garoto, foi à casa dele após a aula. A mãe de Sérgio achou graça porque o animal – uma linda aberração – era a paixão da criança e da família.

- Olha, Eva, ele gosta muito mesmo da senhora, porque em casa é muito ciumento do bichinho.

Sérgio, nos dias de início das aulas, chorava tanto, que, literalmente, ficava com a camisa do uniforme encharcada. Chorava pelos olhos, pelo nariz, pela boca. Às vezes, pela bexiga. Eva fora tão carinhosa, que o conquistara “para sempre”.

- Fessora, eu amo você para sempre!

- Que bom, Serginho, eu também, mas agora, vá para o recreio merendar e brincar...

Se deixasse, ele ficaria olhando-a, sem ir ao pátio com os coleguinhas...

Ele chegou com um sorriso de melancia no rosto moreno, olhos cheios de estrelinha:

- Olha tia, meu gato-coelho!

Ou então, um coelho-gato. O menino tinha razão. Um mistério de cruzamento. Deixou-o contentíssimo, aliviado, quando declinou do presente, com uma desculpa.

- Ah, Serginho, não vou poder levá-lo, porque na minha casa temos dois cachorros e ele vai correr perigo...

Num feriado, arrumando seus guardados, encontrou o retalho, já retalhado, em cinco retângulos menores. Teve a idéia de fazer uma boneca e foi costurando, com ponto caseado miúdo, braços, pernas, tronco.

Braços e pernas, após enrolar cada tecido sobre si mesmo, como rocambole, os primeiros mais apertados para ficarem mais finos e não precisarem de enchimento. Já as pernas, tronco e rosto, receberam espuma de nylon por dentro.

A cabecinha fez com um pedaço de cetim preto. Olhos de botões, boca e nariz bordados, cabelos de lã preta em mil trancinhas, vestido xadrez vermelho “vichy”, avental marinho.

Fez por fazer, talvez para os filhos que tivesse, uma garotinha ou garotinho – afinal, estavam descobrindo que os meninos também podem gostar de brincar de pais. Mas, pronta a Maria Pretinha, pensou nos “filhos diários e resolveu levar a boneca para a escola.

A Maria ficou na bolsa enorme do tipo que as professoras usam para caber toda a tralha didática. De repente, Lu e Marcos saíram aos tapas, sem ouví-la quando pediu que parassem com a encrenca. Aí, lembrou-se da boneca e tirou-a, expondo-a aos olhos curiosos da criançada, que dela se aproximou. Quando os briguentos perceberam que não tinham platéia, também se chegaram. Aí, quase sem mover a boca, como fazem os ventríloquos, mas deixando o som formar-se naturalmente, admoestou Lu e Marcos e então começou a incrível história de amor, empatia imediata, entre os pequenos e Maria Pretinha.

A partir daí, tudo que queria, pedia através da boneca. Num dia em que esqueceu de colocá-la na bolsa, deixando-a pendurada no varal, para tomar um solzinho, foi uma decepção geral. Aninha, de sobrenome alemão e incríveis olhos azuis, passou todo a tarde a olhar para o lugar, sobre a escrivaninha, onde Maria Pretinha ficava sentada, costas apoiadas em livros. Eva notou que, após as perguntas iniciais, o resto da turma, compreendendo sua explicação de que ontem chovera dentro da grande bolsa de palha e, se não secasse, a boneca iria mofar, aquietou-se, participando das atividades do dia. Aninha, não: ora suspirava, ora enchia os belos olhinhos de lágrimas, olhando de vez em quando para o lugar sem bonequinha.

Após a aula final, a garotinha a esperou:

- “Fessora”, amanhã a senhora jura que traz a Maria Pretinha?

- Claro, Aninha! Quando eu chegar em casa, vou contar a ela que você sentiu sua falta...

- Eu fiquei morrendo de saudades dela...

- “Vivendo de saudade”, pensou Eva, fazendo um carinho nos cachos cor-de-mel e preparando-se para ir embora: não podia perder o ônibus, pois Pete saía do trabalho e corria para esperá-la no ponto final, de onde iam caminhando de mãos dadas, lentamente, ele falando de uma tal CLT, ser ou não optante da lei e ela contando dos aluninhos do pré-primário.

No fim do ano, quando as aulas iam encerrar-se, ela sabia que não ia voltar porque, casando-se, ia mudar de cidade. Fez uma festinha para sua classe, entregou a “Aninha Cachinhos de Ouro”, como chamava a sensível menina, um pacote embrulhado em papel fantasia. Havia levado um presentinho para cada um dos alunos, deixando-a por último. Aí, abraçando-a, disse-lhe ao ouvido:

- Só abra quando chegar em casa, porque seu presente é especial, eu não tinha para todo mundo.

Aninha entendeu, surpresa, mas com medo de acreditar, correu para casa e no caminho rasgou um pedaço do embrulho... Acertara: os pés de Maria Pretinha apareceram fazendo seu coração bater mais forte.

Eva, parece que adivinhou ao lhe dar o presente; só teve dois filhos, homens, que, ensinados pelo avô, tinham horror a bonecas, “coisa de menina, mãe”... Mas Eva nunca esqueceu Aninha, nem esta a sua Maria Preta...


Este conto, publicado em originalmente em
é autobiográfico.Somente o finalzinho foi inferido, pois se refere a pensamento de outrem-a aluninha.

Mereceu quarto lugar em concurso Arnalgo Giraldo e publicado nas Edições Agiraldo(Edições AG/AllPrint).
Na verdade, concorreu em outro certame, mas por eu não haver entrado na edição cooperativa, por uma delicadeza de Arnaldo e sua filha luciana, entrou nesse -saiu no livro Casa Lembrada, Casa Perdida-pg 112).

Sobre a deliciosa capa, com um Quilt criado pela artista plástica Luciana Giraldo ,que já criou lindas outras capas, onde suas telas emprestam-se ao título da hora,assim comenta:
"
Casa lembrada, Casa Perdida - nova capa


Havia algum tempo que vinha pensando na capa do livro, e não estava muito satisfeita. Quis fazer algo diferente, que remetesse a lembranças sem ser muito literal. (Sim, caro leitor/autor - sou eu mesma quem faço as capas dos livros da Edições AG)...
Bom, como alguns de vocês sabem, tenho interesse por artes visuais e trabalho também na área de artesanato com tecido. E sempre tive essa vontade de utilizar de alguma forma o tecido nas capas dos livros. E achei que era a hora certa de realizar esta experiência, pois o tema do livro remete à memória, à infância, às casas do passado - vividas ou inventadas por nós.
Bom, acho que não é preciso dizer muito mais... Daí resultou esta capa, para o livro Casa Lembrada, Casa Perdida.

Naturalmente, espero que a maior parte de vocês (autores do livro) gostem do resultado, mas bem sei que não dá para agradar a todos; Infelizmente... Enfim, estou aberta para ouvir a opinião de vocês. O Quilt que deu origem a esta capa ainda está sendo feito por mim, e caso interesse conhecer o processo de trabalho envolvido nesta produção, fique à vontade".

Postado por Luciana às 10:12
Marcadores: Casa Lembrada Casa Perdida, publicações, XXV Concurso Internacional "

Visite o site:

http://editoraag.blogspot.com/2008/08/casa-lembrada-casa-perdida-nova-capa.html


De vez em quando, escrevo a Luciana e comento sobre a arte de suas capas.

Aproveito para ressaltar a seriedade das Edições Ag e seus concursos, pois, por falta de tempo e oportunidade de ir ao Correio, não mandei os cheques para a inclusão em uma das antologias cooperadas -a resultante do XXIII Concurso Internacional.

Então eles o colocaram nesse volume, do Concurso XXV e me enviaram o mesmo.

Agradeço sobremaneira e louco essa atitude que se reporta ás devidas sagradas relações entre editor e autor- o que nem sempre é respeitado.

Clevane Pessoa de Araújo Lopes

Diretora regional do inBrasCi em Belo Horizonte, MG

>>>***<<<

Pelo Goole, encontro alguns locais onde está esse simples relato de uma época em que foi professorinha (em Juiz de Fora, MG):

clevane pessoa de araújo lopes - Textosclevane pessoa de araújo lopes. Cotidiano, 14/11/05. A Boneca de veludo preto. clevane pessoa de araújo lopes. Cotidiano, 06/11/05 ...
recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=723&categoria=1


Jornal de Poesia - Clevane Pessoa - 11:45A boneca de pano. O retalho de fino veludo preto, na banca das “Casas Regente”, tradicional loja de tecidos em “Juiz de Fora” , atraiu a moça. ...
www.jornaldepoesia.jor.br/clevanepessoa5.html


A BONECA DE PANOA BONECA DE PANO. by Clevane Pessoa. O retalho de fino veludo preto, na banca das “Casas Regente”, .... A cabecinha fez com um pedaço de cetim preto. ...
www.bonecadetrapo.hpg.com.br/bonecapanoclevane.htm


XXIII Concurso Internacional - Primavera Ordem: Categoria / Nome ...Clevane Pessoa de Araújo Lopes, CONTO, 4º lugar, A boneca de veludo preto, 4, Belo Horizonte, MG. Condorcet Aranha, CONTO, 12º lugar, Minha noite com um ...


www.geocities.com/Paris/9721/classific_23.htm - 170k - Em cache - Páginas Semelhantes
XXIII Concurso Internacional - Primavera Nome categ CLASSIF. obras ...Clevane Pessoa de Araújo Lopes, CONTO, 4º lugar, A boneca de veludo preto, 4, Belo Horizonte, MG. Edileny Machado, CONTO, 4º lugar, Sombras de Kafka ...
www.giraldo.org/conteudo2.html - 428k

(*) O conto já foi publicado também com o título de A Boneca de Pano.

LUCKY



Foto:Allez Pessoa, meu filho


30/08/2006 14h39

LUCKY

Clevane Pessoa Lopes

No dia de meu aniversário,dia 16 de julho, eu havia programado ir à feira de artesanato na Afonso pena, ainda hoje chamada de Feira Hippy(nome que tinha nos anos 60/70, quando era armada na Praça da Liberdade, em frente ao palácio do Governo).Estava com minha amiga Mariinha ,a escritora Maria de Jesus Fortuna,quando ligou-me a Rewlva, uma universitária que desde a adolescência, ajeita, no computador, minhas clevanices de digitação.
Pediu-me que passasse por sua casa, iria viajar e queria entregar-me um presente.Era o Lucky,um cãozinho, mas eu ainda não havi escolhido um nome para ele.
O cachorrinho da Relva é um poodle preto, lindo e penso que, inconscientemente, eu imaginara um cãozinho assim.

Depois de comprarmos algumas coisas na feira,agora estirada ao longo da Av.Afonso Pena irmos ao pintor Alberto,que fizera uma Santa Ana para minha amiga,ou melhor duas-e lá fui eu a ajudá-la a escolher entre o belo e ...o belo:dúvida por aproximação de semelhança, é sempre mais difícil de optar que em casos de aproximação por esquiva, aprendi na faculdade(ex:algo feio, algo bonito;algo ruim, algo bom)...

Feita a escolha, por motivos sutilíssimos e pessoais ou detalhes mínimos, por exemplo, a sandália aopé dos pés de Maria menina, a ouvir os ensinamentos de sua mãe, acabei por ganhar uma tela, de presente.Entre um S.Francisco transcendental e uma jovem mulher amamentando, fiquei com a última,porque estávamos fazendo um e-book para o ENAM (a acontecer em Porto Alegre, brevemente), com trovas de vários trovadores,sobre amamentação,aleitamento materno.

Depois de comermos acarajé(ambas nordestinas, de que forma resitir?Ou para que?), saímos da multidão costumeira - ainda mais aumentada por ser mês de férias e a capital mineira receber tantos visitantes.Tive devoltar, enquanto Mariinha permanecia na esquina do Othon, vigiando uma outra tela, de anjo, que comprara para o quarto de uma criancinha (melhor do que ganhar tela, só mesmo,para mim, ganhar livro...).

Eu perdera a parte escura, acoplada às lentes de grau dos meus óculos novos ,colocadas as hastes no decote, para poder comer, já que atrapalham de perto.Claro,não encontrei:deve ter sido varrida pelas centenas de pés para lá e para cá.

Conseguimos um táxi.Relva mora na Rua Itororó, no Padre Eustáquio) ,uma das seriadas com nomes de batalhas famosa.
Cheguei e fui ao portão alto,indevassável, apertar a companhia.A mana caçula de Relva, Gabriela, foi com Lilian, a do meio, foram buscar o presente.
Chegou-me uma caixa de papelão pardo, quadrado,com cabeça.Olhinhos de apertar o coração.Apaixonei-me de cara.

A mãe da Relva explicou-me algumas coisas:o caozinho não fôra vermifugado nem vacinado.A Relva não estava(chegou depois correndo, com os olhos verdes iguais à sugestão do prenome, preparava-se para ir a uma Feira de Informátia em S.Paulo).Se eu quisesse, poderia devolvê-lo, pois o que a Relva encomendara, fôra doado,pelo dono, a uma criança autista.Ótima destinação.

Elas queriam dar-me o cachorrinho para que eu saísse mais depressa de quase um ano de luto, apenas alimentando rolinhas e pardais e paparicando flores lindas mas mudas.

Paramos numa farmácia, por ser domingo, onde eu encontraria artigos para animais mais facilmente para eu comprar um bercinho e comida para o presente, que de orelhinhas caídas , a cabecinha fora da caixa quadrada, nos olhava."Ele pode enjoar", avisaram-me.Não enjoou.Aos cuidados de Mariinha, aguardou que eu voltasse, com um tênis em forma de caminha acolchoada,para bebês,ração,brinquedo.
Logo que chegamos, vi que ele não era muito pequenino.As mocinhas o haviam tosado, dado banho e vestido com uma camisinha de bebê.Esta, até hoje é seu objeto transferencial, que ele carrega para todo lado.

Fui jantar em casa da namorada de meu filho(a foto foi tirada por ela, uns dias depois), um jantarzinho delicioso feito por meu filho ,o contrabaixista Allez Pessoa e, de cachorrinho novo,por medo de que sentisse solidão e chorasse muito, levei-o dentro do bercinho, útero de nylon que de cara, ele amou.Foi chegando e batizando a cozinha do apartamento com uma xixada básica.Desconfiado, jururu, devia estar saudoso da ninhada, da mãe.

No outro dia, em casa,vi logo que era levadíssimo.Brincava a dizer-lhe : "Você não é o Menino Maluquinho!" (do Ziraldo), pois ele pegava o bercinho,enfiava a cabeça e saía arrastando-o."Você é o cachorro maluquinho".Desse adjetivo, surgiu a idéia de chamá-lo Lucky)"Cachorro Maluckynho".Alessandro diz que parece o Trambique, um personagem , por isso colocou o codinome sobre a foto(de celular).

Na verdade, ele é engraçadíssimo, grande,misturou várias raças.lembrei-me de minha loura iga Renate, casada com um engenheiro moreno,brasileiro, que,por ter nascidio na Alemanha, pensava,para seu nenê, o protótipo dos bebezinhos lourinhos e carecas, com penugens douradas na cabecinha.Quando lhe mostraram a linda Ana Luiza, recém nascida, levou pelo menos um minuto olhando-a, sem entender que aquela era a sua meninazinha.Morena clarinha, mas de fartos cabelos escuros... Pois eu, fui receber um poodlezinho preto e veio-me essa mistura de raças, um viralatinha lindo.E como tal, vira latas, vaso de plantas, vira tudo ! Esconde tesouros no tal bercinho,que ficou logo pequeno e que ele arrasta pela casa.Agora, o traz e enquanto estou revisando umas poesias de um poeta que mora em Bóston,fica, na madrugada, cochilando aos meus pés.Se o levo, em pouco tempo, ele chega de volta, com as toalhas que lhe servem de coberta,os brinquedos, depois a cama.E faz de brinquedo todas as garrafinhas pet de água mineral.Quebra minhas adoráveis plantas, para arrastar galhos e flores alegremente...

A veterinária disse que,pela dentição, tinha dois meses, ao chegar.E que ia ficar grandinho.Está ficando.Já mira a distãncia, recua e pula até alcançar-me se vejo um filme deitada na poltrona...
Daniela Furst, que trocará de sobrenome neste sábado, quando se casará com outro veterinário, seu bem amado Júlio,veio vacinar o Lucky trazendo suas duas assistentes, a Nina e a outra, dua spoodles legítimas e maravilhosas, que se incumbiram de distrai o paciente.

Qunado ela veio, neste mêes, para aplicar a segunda dose, ele ficou louco de alegria, cheirando suas roupa branca, como se perguntasse pelas princesas.Meu plebeuzinho querido!

O interessante é que aqui em casa,começamos a ficar com os dedos e unhas sujas de preto,quando o coçávamos , a água do banho, saia escura demais para ser apenas o sujo das terras que ele escava...de meus vaso grandes.Ele chegou cinza escuro, grafite.Pois foi ficando mesclado, mostra partes cor de creme, e nem sei mais de que cor é."Você pode devolvê-lo",disse-me a Deise,mãe das três princesas, às quais considero como se fossem sobrinhas.

Se mãe adotiva que encomenda um nenê, ao chegar para adotá-lo, recebe uma pessoazinha com outra cor de cabelos, pele e olhos, será que devolveria?Eu não! Apesar dele ser um animazinho de estimação.Ou como escreveu meu amigo o poeta Kiko Consulin,paranaense radicado no Maranhão, "estimalzinho de animação"(seu maravilhoso livro de poesias,chama-se exatamente "Estimaizinhos de Animação").E como é animado esse meu Lucky!Não pára um minuto, exceto quando cochila,de tão cansado.Anima, alma.Bem sei que os cãozinhos têm alma.E entendem os donos.

O certo é que meu luto ficou mais fácil de suportar...

Ah! Mas quem será que pintou o Lucky(com papel de seda?Com "shampoo que lava colorindo !")? Que importa?Importa que meu maluckinho, maluCÃO, é uma gracinha...


Clevane Pessoa de Araújo Lopes
Belo Horizonte, 30/08/2006

Pubicado originalmente também no site da autora : http://www.clevanepessoa.net/blog.php?idb=2385

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Nomes de gato

OS TRÊS NOMES DO GATO (*) - Lázaro Barreto.


Dar nome aos gatos não é tarefa fácil nem fútil.
Muitas vezes quando digo que o gato deve ter
TRÊS NOMES DIFERENTES,
olham-me de novo, julgam-me biruta.
Mas assim é, por mais que estranhem e gozem.
Primeiro o nome corrente, de uso da família,
que pode ser Poetinha, Alípio ou Conceição.
Depois o escolhido de pessoas refinadas
(extravagantes ou mesmo sóbrias),
como Menelau, Polonaise ou Pixinguinha.
Por último o mais íntimo e solitário,
que ele mais necessita para manter o orgulho
e esticar os bigodes, enrodilhar-se na cadeira
ou pular o muro como num vôo
- e que pode ser Diadorim, Caracóia ou Ana Lívia Plurabelle,
que nenhum outro gato deste mundo ostenta.

Mas além desses e acima de tudo e de todos,
há um nome especial de sua preferência
e esse ninguém sabe e nunca saberá.
É o nome que nenhuma pesquisa humana pode descobrir
e que só o próprio gato sabe,
mas que nunca dirá a ninguém.
Assim,
quando ver um gato em profunda meditação,
os olhos abertos e cegos, as unhas em inocente repouso,
saiba que a razão é sempre a mesma:
sua mente está ocupada na contemplação de seu misterioso
e inescrutável e singular NOME.

(*) Paráfrase de Um Poema de T. S. Eliot).


Clevane Pessoa disse...

Belo Poema, amigo Lazaro.
Escrevi essa historiazinha abaixo...


ÀS vezes um poeta atrai um gato que finge não termedo do medo, nomeia-o e intue que ele tem um nome inominável.O poeta conta à rosa bem amada que o gato, enfim , come de sua mão e roça nele com pelos eriçados quais o de seu ventre cálido.O dela.
Depois, ele, o Poeta,afasta-se .A musa mia para a lua, perplexa.
O poeta agora, tem apenas o gato de rua,sem gata,sem rata sequer,sem pantera-mulher.E enquanto ouve a hiena rir, teme que tranforme-se em loba e o devore.
Enquanto isso, a mulher pantera ronda .Ele freme as narinas e capta o cheiro de cio.

Cindy, Lucky e eu







Cindy e eu com orquídea nos "cabelos".Meu filho Alessandro e Ju a salvaram da morte:compraram-na no mercado e a trouxeram para mim,cabia na mão- mas eu disse que já cuidava do Lucky e fiquei meio no papel de "vovó" dessa fofura, que criada com amor, floresceu com seu pelo cor de chamapgne, sedoso e lindo.
Ela vem aqui para casa qual criança de apartamento que vai ao parquinho.Brinca até ficar exausta.Com Lucky e sozinha.

A rosa trovadoresca




A rosa é o símbolo dos trovadores.

Dia 06, viajo a santa catarina, para o Balneário de Camboriú, que realiza Jogos Florais, mas em Brusque.

Viajo a convite de Gislaine Canales, que de vez em quando, glosa alguma de minhas trovas...

Acho que será muito bom , reencontrar o clima festivo dos trovadores.

Haverá missa em trova(com as escritas por Antonio Augusto de assis, o festejado e premiado trovador).

Colho a rosa e envio-a para Gislaine.Que teve o filho no dia do aniversário, levou a trova à Argentina.E tem o prenome de minha primeira boneca.

Clevane

Clevane

Pata-de- vaca




Há dois anos, plantei uma semente redondinha e bela de pata-de-vaca.
Agora, uma árvore florida passa a minha casa, com as folhas lindas que lembra patas-de-vaca, mas também corações.

As flores, parecem orquídeas.Há das brancas.As minhas são arroxeadas.

O vizinho chamou-me para avisar que sua calha tinha folhas.Podei a contra-gosto, do lado de seu telhado.Com pena mesmo.Mas os galhos que ficaram, desenvolveram-se ainda mais.

As raízes são perigosas , dizem-me.pago para ver.O filho avisa que "vai virar uma floresta'.Acho graça:Como advinhou que é isso mesmo que eu quero?

Agora, uma árvore cresce e foi por mim plantada.Meu atavismo festeja.

A "pata-de-vaca é usada em Diabetes.Para equilibrar o pãncreas.E minha amiga Andréia campolina, médica homeopata, manda que as mulheres façam um feixe e, embaixo do chuveiro, deixem a água formar uma espécie de caldo com elas.Tomem banho do pescoço para baixo, ensina.

Melhora os calores do climatério- o calor que vem de dentro para fora...

Marina Colasanti, em 1996,dizia numa entrevista que Deus é uma árvore.Ela era deus.Deus era ela.Ela era uma árvore.Deus, uma árvore...

lembro: os antigos romanos tinam seus oratórios nos bosques.Não havia templos.E as árvores eram deuses.
As dríades, em torno, tomavam conta de uma.E as hamadríades, viviam dentro do trondo.

Meu kmano Nildo Pessoa,artista plástico, pintou uma série de freiras, em 1979, aprisionadas em árvores.Muito simbólico...O ionconsciente coletivo traz ao artista essas lembranças...

Clevane Pessoa de Araújo Lopes

Aves- cãozinho- lusofonia e assuntos afins






imagens:
beija-flor, pardal,Luckynho,rolinha


Uma garota perguntava-me sobre a reforma ortográfica, expliquei-lhe sobre lusofonia.Quando recebi , em 2007,o título de Poeta Honoris Causa ,para oito Países lusófonos,tembém indagaram-me sobre eles e então a História, a Geografia, as guerras , tudo entra no caldeirão.
Esse meu texto abaixo foi publicado em site português que abrange histórias sobre animais, uma delícia.
Noutro dia, reli-o lá e vi que muitas palavras foram "aportuguesadas" para o "Português de Portugal".Agora, não seria mais preciso.

Visite o site, se gosta de aves, quatro-patinhos, insetos e tudo mais da fauna.Deliucioso espaço!
E meu texto abaixo.Devo dizer que não posso mais receber em casa minhas avezitas;pelas leis do amor ao cãozinho Lucky, que é ciumento demais e odeia as penosas, botando-as para voar assustadas.

Hoje, revi uma deliciosa entrevista de 1996, no Canal Brasil, com a encantadora Marina Colasanti.Disse que quer os animais soltos e seus amigos-uma cão, uma ovelha- que a olhem nos olhos e venham conversar com ela.Não quer ser dona de nenhum.Posso garantir que Lucky é meu dono:veio com a missão de afastar-me de um luto prolongado.E tomou conta ...Minha amiga Leila Miccolis também estima seus quatro-patinhas, O poeta e contista mineiro Marco Aurélio Lisboa e sua Wal criam gatinhos e noutro dia, escreveu-me feliz porque falei de seus haikais a Iara Abreu e ela vai ilustrá-los,Aliás, a mostra onde ela mostrou nossos poemas e os ilkustrou, fez tanto sucesso, que vai ser colocada em muitas regionais da capital mineira.

No meu sarau em 14 de outubro, no Terças Poéticas, sob a curadoria de Wilmar Silva e que acontece no palácio das Artes, Regina Mello e eu lemos meus haikais de gatinhos desiguais (mebora haikais não sejam intitulados, costumo intitular a série de um mesmo tema), ofereci esses poememtos a iara, que desenha gatinhos do parque Municipal, a Leila Miccolis que abriga vários em Maricá e ao Marco Aurélio, o único presente ( Iara nos aguardava na bilioteca, para onde fomos assim que o sarau terminou, para ver a belezura-beleza pura...)

Agora, leiam meu texto aportuguesado, achei-o mais saboroso:

laurabmartins03.blogs.sapo.pt/arquivo/1048075.html


Aves em liberdade


Sim, alimento as pardais e as rolinhas, para elas, essas avezinhas meras, compro canjiquinha, painço, alpiste e dou do meu próprio pão...

Estou aprendendo a linguagem das rolinhas, que têm um código de asas muito interessante. Para guardar território, para espantar, atrair, expulsar.
Minha amiga, a pintora Neuza Ladeira, contou-me que na Tailândia são aves preciosas e sagradas.

Engraçadinhas, dão a impressão de serem meigas, se essa palavra pode ser aplicada às avezinhas. Mas, pelo que observo com meu olhar de desenhista e poetisa, são extremamente belicosas. Levam a luta aos ares, em rodopio. Em vão ponho bocadinhos aqui e outros ali, no beiral de meu terraço. Brigam pra valer... Enfrentam as pombas espaçosas que descem atraídas pelos grãos, bravamente.

E batem nas rolinhas menores, as bebés um pouco menos querelentas. E quando as assusto sem querer, com meus passos em chinelinhos de cetim, voam para os fios em frente e fingem que não estão vigiando a comida. De vez em quando, fazem que olham, quais as mocinhas de antigamente. Assim que sossego, voam de volta.
Os pardais são cheios de algaravia, ainda não lhes decodifico o linguajar. Chiam e chiam. Acordam-me pela manhã. Invadem-me a casa, entram por qualquer cantinho e depois rodopiam desesperados, à procura da liberdade. Já criei - mais ou menos - um pequenino que, machucado, tolerava a minha proximidade. Eu chamava-o de Jeremias, uma graça.

Os menininhos pardais entram pela sala de porta sempre aberta e, pulinho aqui, pulinho acolá, não são muito medrosos do bicho-mulher. Depois que saem para o mundo, à força de serem escorraçados, de se assustarem com os carros que passam, ficam arredios e medrosos...

Há uma família de bem-te-vis, que longe de ter as asas controladas como as das rolinhas, são de uma alegria enlouquecida. Parecem torcedores com pompons nas mãos. Agitam o que podem, rumorosos e encantadores, listinhas amarelas na cabeça e peito de camisa idem...

Claro, coloquei água para os beija-flores. Um dos bebedouros veio com néctar, mas será que é possível colectá-lo com essa facilidade? Misturo um tantico de açúcar Mascavo ou mel. Eles adoram e com precisão enfiam os bicos longos e finos entre o orifício da corola. A flor é de plástico, mas eles parecem não se importar. Brigam pelo território, como os demais aqui, pelo espaço no ar.
Um foi expulsar com tanto ímpeto o invasor, que o bebedouro foi lançado a muitos metros de distância e se quebrou. Ele andou uns dias passando á procura, até que comprei outro.

Há uns colibris micro, outros do tamanho de andorinhas, e com elas se parecem, rabinhos em tesoura.

Meu marido Eduardo, sabendo dessa minha paixão por passarinhos, veio contar-me que ouvira em uma reportagem na TV, que à noite, de tão cansados, os beija-flores desmaiam (*). Nada os faz acordar. Desde então, corro meu olhar nocturno pela nocturna noite - com redundância propositada -para ver se entre moitas, encontro essas maravilhas que param no ar batendo as asinhas deforma quase inacreditável, coraçãozinho batendo alucinadamente...

Tenho uma colecção de gravuras reproduzidas de beija-flores de famílias várias, pintadas pelo pintor naturalista Etienne Demonte. São de tal forma perfeitas em detalhes, que nem sei de que forma o artista pode fazê-lo. Numa delas, descrevendo o beija-flor "Bico-de-sabre" (Heliothrix aurita auriculata), o especialista Augusto Ruschi chega a atribuir emoções humanas à avezinha:
"A parada nupcial do Heliothrix se desenrola com maior destaque nas fases de apresentação e exibição de plumagem". Sei que no reino animal isso é comum. Iguaizinhos a nós, humanos...

E continua: "na apresentação, o macho, em voo de liberação, se põe diante da fêmea a 30cm, e em voo para cima, para baixo e para os lados, como se estivesse a dar pequenos saltos, pois se lança a tais distâncias, e estanca de etapa em etapa, abrindo e fechando a cauda.

Em voo acompanha a fêmea (é, parece que os machos humanos aprenderam nessa cartilha!) fazendo ascensão em rodopios, para descer a outro pouso onde se segue a fase de exibição de plumagem. Então, o macho, fazendo voos de liberação, faz saltar os tufos violeta laterais, tornando-os bem salientes, e a parte enegrecida que contorna tais tufos. Fica em constante movimento, além de abrir a cauda em leque para, de quando em quando fechá-la e abri-la, até que a fêmea, já psicologicamente conquistada, se entrega".

Entre os humanos, as mulheres usam desses artifícios de conquista. E as gueixas, com seus leques, na dança?!...

Quando me levantei para ir à pasta, buscar uma das gravuras que peguei aleatoriamente, não sabia que encontraria a resposta para a pergunta crucial: ONDE DORMEM OS BEIJA_FLORES?

O dormir é realizado em pouso, em local alto e no emaranhado da vegetação de uma copa fechada", conta Ruschi, o ornitólogo minucioso. Por isso não os encontro quando os procuro, à noite...
O desenhista Etienne ilustra o locus de observação com perfeitas cópias de vegetação...Que lindeza, meu Deus...

Noutro dia, eu queria comprar uns periquitinhos, para ter melhor de quem cuidar. Meu filho Gabriel assombrou-se e proibiu veemente. Não quer morar em um lugar onde algo-alguém- esteja preso, ele que ama a natureza e a liberdade dos seres. Aquiesci. Em vão o vendedor me disse que as avezinhas coloridas já nascem em cativeiro e blá-blá-blá...

Uma vez, conheci uma senhora que deveria chamar-se D.Rolinha, tal sua semelhança: baixinha, encantadora, tão rolicinha (tão rolinha!). Peitoral tão arredondado e farto, que quando ia embarcar, as aeromoças gentilmente a deixavam tomar o avião na frente dos demais. Acreditavam-na grávida e ela, sorridente, aquiescia. Dulcíssima. Mas ai de quem lhe quisesse tomar o território: deu uns tapas na cara da amante do marido, brigou com todos os meninos que brigavam com seus filhos. Virava ave de rapina. Só lhe faltava o tamanho...
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25/04006
Clevane Pessoa de Araújo Lopes

(*) Adorei isso e escrevi uma peça,sobre presos nos Anos de Chumbo :"Mas Afinal, Onde Dormem os Beija-Flores?"Em meu cito sarau, Brenda Mars deveria passar e dizer essa frase com várias entonações.
Depois, disse, inesperadamente, que o ANU fora incinerado.
Quem esteve em Bento Gonçalves, sabe que ela se referira ao livro de Wilmar Silva -a completar 5 anos-, que ele ,simbolicamente, queima e faz voltar às origens da mãe terra.Afinal, o papel é feito de celulose.Tudo começou quando o Ademir Bacca pediu que se levasse terra de sua cidade, mas ele esqueceu.E , no ano passado, queimou o primeiro livro.Agora, virou costume.