segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A Boneca de Veludo Preto-IV lugar no Concurso Internacional das Edições AG




A boneca de veludo Preto (*)



O retalho de fino veludo preto, na banca das “Casas Regente”, tradicional loja de tecidos em “Juiz de Fora” , atraiu a moça. Pensou em cortá-lo em retângulos e neles aplicar flores de fita varicor, o que estava em voga naqueles anos sessenta. Gostava de trabalhos manuais e de criar peças para o seu enxoval. As claras mãos, muitos finas, destacaram-se no negro. O anel bonito, que terminava numa pérola encaixada em garras de ouro branco, faiscou. Presente de Pete, com quem namorava “firme”, como diziam então.

Acabou mandando embrulhar o retalho, pagou e, como sempre, foi à sorveteria da loja, onde os fregueses podiam servir-se gratuitamente de um delicioso sorvete, mais cremoso que o de qualquer outro lugar.

Professorinha recém-nomeada, foi dar aulas em um grupo escolar. Muito ocupada fazendo todo o material didático, já que as escolas estaduais da época possuíam-no muito pouco – confeccionava desde as cadernetas de notas mensais, feitas de cartolina dobradas e decoradas com seus caprichosos desenhos, às provas mimeografadas... Mapas, quadro de pregas para ensino de unidades, dezenas, centenas... Flanelógrafos, corpo humano, fauna e flora! Tudo feito em casa, na grande maioria, mais o plano dos testes... Nas datas comemorativas, dezenas de pequenos brindes e enfeites, alusivo: dia da páscoa, em abril, dia das mães em maio, dias de festas juninas, dia dos pais em agosto, dias da árvore e da entrada da primavera em setembro, dias das crianças e de N. Sra. Aparecida, padroeira do Brasil, em outubro, dia da bandeira em novembro e, em dezembro, as festas de fim de ano, com suas formaturas ou despedidas. Haja papel-cartão, papel-cetim, papel-de-seda, papel fantasia, papel kraft! Haja isopor, cola, aquarela e lápis cera e de cor! Os dedos, machucados de tanto usar tesoura, o rosto com pontos luminosos de brocal, purpurina, as unhas estragando-se.

Mas o prazer de lecionar, agradar à criançada, ver os resultados, mesclado à criatividade que recebera como dom, sobrepujava em muito aquela canseira toda.

Também ganhava presentes, em certas datas, mas, principalmente, no seu aniversário e no dia do professor. Alguns, feitos a capricho, pelas mães, como panos de prato, toalhinhas de crochê. Outros, terríveis, certos bibelôs de porcelana branca, com traços informes e riscos dourados. Alguns insuportáveis perfumes baratos, brincos de plástico vagabundo. Os simplórios ou baratos, como sabonetes. Bichinhos de pelúcia, bombons, cosméticos, principalmente se a mãe era uma “revendedora Avon”.

E broa com carinho, empadinhas sem azeitonas... De vez em quando, havia um pai dono de padaria, uma prendada tia, avó ou mãe confeiteira, doceira, costureira, florista... e, falando em flores, elas vinham aos montes, as de jardins e horta, as arrancadas pelo caminho ou roubadas de vizinhos...

Voltava para casa carregada com esses troféus do carinho que lhe dedicavam, feliz da vida. Uma vez, um aluno quis dar a ela algo inusitado:

- Um gato-coelho, fessora.

- Que é isso, Serginho?

- Um gato com rabo de coelho, todo branco, que pula como coelho.

A mãe dela adorava animais e, acompanhada do garoto, foi à casa dele após a aula. A mãe de Sérgio achou graça porque o animal – uma linda aberração – era a paixão da criança e da família.

- Olha, Eva, ele gosta muito mesmo da senhora, porque em casa é muito ciumento do bichinho.

Sérgio, nos dias de início das aulas, chorava tanto, que, literalmente, ficava com a camisa do uniforme encharcada. Chorava pelos olhos, pelo nariz, pela boca. Às vezes, pela bexiga. Eva fora tão carinhosa, que o conquistara “para sempre”.

- Fessora, eu amo você para sempre!

- Que bom, Serginho, eu também, mas agora, vá para o recreio merendar e brincar...

Se deixasse, ele ficaria olhando-a, sem ir ao pátio com os coleguinhas...

Ele chegou com um sorriso de melancia no rosto moreno, olhos cheios de estrelinha:

- Olha tia, meu gato-coelho!

Ou então, um coelho-gato. O menino tinha razão. Um mistério de cruzamento. Deixou-o contentíssimo, aliviado, quando declinou do presente, com uma desculpa.

- Ah, Serginho, não vou poder levá-lo, porque na minha casa temos dois cachorros e ele vai correr perigo...

Num feriado, arrumando seus guardados, encontrou o retalho, já retalhado, em cinco retângulos menores. Teve a idéia de fazer uma boneca e foi costurando, com ponto caseado miúdo, braços, pernas, tronco.

Braços e pernas, após enrolar cada tecido sobre si mesmo, como rocambole, os primeiros mais apertados para ficarem mais finos e não precisarem de enchimento. Já as pernas, tronco e rosto, receberam espuma de nylon por dentro.

A cabecinha fez com um pedaço de cetim preto. Olhos de botões, boca e nariz bordados, cabelos de lã preta em mil trancinhas, vestido xadrez vermelho “vichy”, avental marinho.

Fez por fazer, talvez para os filhos que tivesse, uma garotinha ou garotinho – afinal, estavam descobrindo que os meninos também podem gostar de brincar de pais. Mas, pronta a Maria Pretinha, pensou nos “filhos diários e resolveu levar a boneca para a escola.

A Maria ficou na bolsa enorme do tipo que as professoras usam para caber toda a tralha didática. De repente, Lu e Marcos saíram aos tapas, sem ouví-la quando pediu que parassem com a encrenca. Aí, lembrou-se da boneca e tirou-a, expondo-a aos olhos curiosos da criançada, que dela se aproximou. Quando os briguentos perceberam que não tinham platéia, também se chegaram. Aí, quase sem mover a boca, como fazem os ventríloquos, mas deixando o som formar-se naturalmente, admoestou Lu e Marcos e então começou a incrível história de amor, empatia imediata, entre os pequenos e Maria Pretinha.

A partir daí, tudo que queria, pedia através da boneca. Num dia em que esqueceu de colocá-la na bolsa, deixando-a pendurada no varal, para tomar um solzinho, foi uma decepção geral. Aninha, de sobrenome alemão e incríveis olhos azuis, passou todo a tarde a olhar para o lugar, sobre a escrivaninha, onde Maria Pretinha ficava sentada, costas apoiadas em livros. Eva notou que, após as perguntas iniciais, o resto da turma, compreendendo sua explicação de que ontem chovera dentro da grande bolsa de palha e, se não secasse, a boneca iria mofar, aquietou-se, participando das atividades do dia. Aninha, não: ora suspirava, ora enchia os belos olhinhos de lágrimas, olhando de vez em quando para o lugar sem bonequinha.

Após a aula final, a garotinha a esperou:

- “Fessora”, amanhã a senhora jura que traz a Maria Pretinha?

- Claro, Aninha! Quando eu chegar em casa, vou contar a ela que você sentiu sua falta...

- Eu fiquei morrendo de saudades dela...

- “Vivendo de saudade”, pensou Eva, fazendo um carinho nos cachos cor-de-mel e preparando-se para ir embora: não podia perder o ônibus, pois Pete saía do trabalho e corria para esperá-la no ponto final, de onde iam caminhando de mãos dadas, lentamente, ele falando de uma tal CLT, ser ou não optante da lei e ela contando dos aluninhos do pré-primário.

No fim do ano, quando as aulas iam encerrar-se, ela sabia que não ia voltar porque, casando-se, ia mudar de cidade. Fez uma festinha para sua classe, entregou a “Aninha Cachinhos de Ouro”, como chamava a sensível menina, um pacote embrulhado em papel fantasia. Havia levado um presentinho para cada um dos alunos, deixando-a por último. Aí, abraçando-a, disse-lhe ao ouvido:

- Só abra quando chegar em casa, porque seu presente é especial, eu não tinha para todo mundo.

Aninha entendeu, surpresa, mas com medo de acreditar, correu para casa e no caminho rasgou um pedaço do embrulho... Acertara: os pés de Maria Pretinha apareceram fazendo seu coração bater mais forte.

Eva, parece que adivinhou ao lhe dar o presente; só teve dois filhos, homens, que, ensinados pelo avô, tinham horror a bonecas, “coisa de menina, mãe”... Mas Eva nunca esqueceu Aninha, nem esta a sua Maria Preta...


Este conto, publicado em originalmente em
é autobiográfico.Somente o finalzinho foi inferido, pois se refere a pensamento de outrem-a aluninha.

Mereceu quarto lugar em concurso Arnalgo Giraldo e publicado nas Edições Agiraldo(Edições AG/AllPrint).
Na verdade, concorreu em outro certame, mas por eu não haver entrado na edição cooperativa, por uma delicadeza de Arnaldo e sua filha luciana, entrou nesse -saiu no livro Casa Lembrada, Casa Perdida-pg 112).

Sobre a deliciosa capa, com um Quilt criado pela artista plástica Luciana Giraldo ,que já criou lindas outras capas, onde suas telas emprestam-se ao título da hora,assim comenta:
"
Casa lembrada, Casa Perdida - nova capa


Havia algum tempo que vinha pensando na capa do livro, e não estava muito satisfeita. Quis fazer algo diferente, que remetesse a lembranças sem ser muito literal. (Sim, caro leitor/autor - sou eu mesma quem faço as capas dos livros da Edições AG)...
Bom, como alguns de vocês sabem, tenho interesse por artes visuais e trabalho também na área de artesanato com tecido. E sempre tive essa vontade de utilizar de alguma forma o tecido nas capas dos livros. E achei que era a hora certa de realizar esta experiência, pois o tema do livro remete à memória, à infância, às casas do passado - vividas ou inventadas por nós.
Bom, acho que não é preciso dizer muito mais... Daí resultou esta capa, para o livro Casa Lembrada, Casa Perdida.

Naturalmente, espero que a maior parte de vocês (autores do livro) gostem do resultado, mas bem sei que não dá para agradar a todos; Infelizmente... Enfim, estou aberta para ouvir a opinião de vocês. O Quilt que deu origem a esta capa ainda está sendo feito por mim, e caso interesse conhecer o processo de trabalho envolvido nesta produção, fique à vontade".

Postado por Luciana às 10:12
Marcadores: Casa Lembrada Casa Perdida, publicações, XXV Concurso Internacional "

Visite o site:

http://editoraag.blogspot.com/2008/08/casa-lembrada-casa-perdida-nova-capa.html


De vez em quando, escrevo a Luciana e comento sobre a arte de suas capas.

Aproveito para ressaltar a seriedade das Edições Ag e seus concursos, pois, por falta de tempo e oportunidade de ir ao Correio, não mandei os cheques para a inclusão em uma das antologias cooperadas -a resultante do XXIII Concurso Internacional.

Então eles o colocaram nesse volume, do Concurso XXV e me enviaram o mesmo.

Agradeço sobremaneira e louco essa atitude que se reporta ás devidas sagradas relações entre editor e autor- o que nem sempre é respeitado.

Clevane Pessoa de Araújo Lopes

Diretora regional do inBrasCi em Belo Horizonte, MG

>>>***<<<

Pelo Goole, encontro alguns locais onde está esse simples relato de uma época em que foi professorinha (em Juiz de Fora, MG):

clevane pessoa de araújo lopes - Textosclevane pessoa de araújo lopes. Cotidiano, 14/11/05. A Boneca de veludo preto. clevane pessoa de araújo lopes. Cotidiano, 06/11/05 ...
recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=723&categoria=1


Jornal de Poesia - Clevane Pessoa - 11:45A boneca de pano. O retalho de fino veludo preto, na banca das “Casas Regente”, tradicional loja de tecidos em “Juiz de Fora” , atraiu a moça. ...
www.jornaldepoesia.jor.br/clevanepessoa5.html


A BONECA DE PANOA BONECA DE PANO. by Clevane Pessoa. O retalho de fino veludo preto, na banca das “Casas Regente”, .... A cabecinha fez com um pedaço de cetim preto. ...
www.bonecadetrapo.hpg.com.br/bonecapanoclevane.htm


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(*) O conto já foi publicado também com o título de A Boneca de Pano.

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